quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Manuel Bandeira: Um poema de cada obra


 Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968), nascido em Recife, é quase unanimemente reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Apesar de ter escrito outros gêneros (crônicas, antologias, traduções...) foi na arte do poema que Bandeira consagrou seu lugar de destaque no cânone literário brasileiro.

No livro Estrela da Vida Inteira, inicialmente publicado em 1966, ainda em vida do poeta, foram compiladas as obras poéticas de Bandeira, desde As Cinzas das Horas (1917) até Estrela da Tarde (1960), contando ainda, pelo menos na edição que eu tenho (Nova Fronteira, 1993), com os “versos de circunstância” de Mafuá do Malungo e uma seleção de Poemas Traduzidos. Trata-se, como se pode ver, de toda uma vida de poesia.  Concluída a leitura da obra, decidi fazer aqui uma seleção de um poema de cada um dos dez livros poéticos de Manuel Bandeira, incluindo o Mafuá do Malungo e deixando de fora apenas os poemas traduzidos. A seleção, naturalmente, reflete meu gosto pessoal.

 

À beira d'água (CINZAS DAS HORAS)

D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.

Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqüila…

Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar…

E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar…

 

Do que dissestes (CARNAVAL)

Do que dissestes, alma fria,

Já nada vos acode mais?...

Éramos sós... Fora chovia...

Quanta ternura em mim havia!

(Em vós também... Por que o negais?)

 

Hoje, contudo, nem me olhais...

Pobre de mim! Por que seria?

Acaso arrependida estais

Do que dissestes?

 

É bem possível que o estejais...

O amor é coisa fugidia...

Eu, no entretanto, que em tal dia

Gozei momentos sem iguais,

Eu não me esquecerei jamais

Do que dissestes.

 

O Silêncio (O RITMO DISSOLUTO)

Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contacto das minhas mãos lentas,
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.

Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.

Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha…
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.

É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.

 

Andorinha (LIBERTINAGEM)

Andorinha lá fora está dizendo:
— "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . .

Momento num Café (ESTRELA DA MANHÃ)

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

 

Maçã (LIRA DOS CINQUENT'ANOS)

Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende o cordão placentário

És vermelha como o amor divino

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.

O Rio (BELO BELO)

 Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.

 

Noturno do Morro do Encanto (OPUS 10)

Este fundo de hotel é um fim de mundo!
Aqui é o silêncio que tem voz. O encanto
Que deu nome a este morro, põe no fundo
De cada coisa o seu cativo canto.

Ouço o tempo, segundo por segundo,
Urdir a lenta eternidade. Enquanto
Fátima ao pó de estrelas sitibundo
Lança a misericórdia do seu manto.

Teu nome é uma lembrança tão antiga,
Que não tem som nem cor, e eu, miserando,
Não sei mais como o ouvir, nem como o diga.

Falta a morte chegar… Ela me espia
Neste instante talvez, mal suspeitando
Que já morri quando o que eu fui morria.

 

Antologia (ESTRELA DA TARDE)

A vida
Com cada coisa em seu lugar.
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p'ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.

Quero esquecer tudo:
- A dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar. 

Agradecendo doces a Stella Leonardos (MAFUÁ DO MALUNGO)

1. Doces de açúcar e gemas

    São teus versos, e teus doces

    Sabem a poemas: não fosses

    Toda doce em cada poema!

 

2. Pouco e coco rimam, sim,

    Mas quando o coco é o seu coco,

    Que, por mais que seja, é pouco

    (Pelo menos para mim!).

 

3. Não veio doce, mas veio

    Verso seu, que me é tão doce

    Como se doce ele fosse:

    Mais que doce: doce e meio!


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