Para demonstrar a influência que tem a obra de García Lorca nos países de fala espanhola: fui ao YouTube e percebi que muitos dos sonetos e outros poemas que eu estava lendo haviam sido musicados por vários artistas. De fato, conferi que não há um só, entre os 32 poemas da edição, sem ter versão em música, e há alguns com mais de uma versão!
Inclusive seria bastante egoísta de minha parte não compartilhar com o leitor duas pérolas musicais que descobri nessa jornada de adaptações lorquianas: a intensa versão de Miguel Poveda para o soneto "El poeta pide a su amor que le escriba" (clique aqui) e esta muito comovente canção que é a "Gacela del amor imprevisto", interpretada por Mayte Martín (clique aqui).
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| Federico García Lorca (1898 - 1936) |
Federico García Lorca foi um poeta e dramaturgo nascido em Granada, Espanha, fortemente influenciado pelas tradições ciganas e mouras de sua terra. De sua trajetória poética destacam-se as obras Cancioneiro gitano e Poeta em Nova Iorque, além das que estão em questão nesta postagem. Suas mais conhecidas obras teatrais são Bodas de Sangue e A casa de Bernarda Alba. Foi amigo de Salvador Dalí e outros relevantes artistas espanhóis do século XX. A morte, temática tão recorrente quanto o amor em toda a obra lorquiana, marcou, tragicamente, a biografia do poeta: pouco depois do golpe de estado que desencadeou a Guerra Civil Espanhola, Federico foi fuzilado por militares, tendo sido considerado um perigoso subversivo, com a idade de 38 anos. Mais uma vez, a literatura, por seu papel humanizador e desafiador tem sucesso em provocar a indignação dos tiranos.
Publicados postumamente, os Sonetos do Amor Obscuro são onze poemas tradicionais quanto à forma (embora na tradução aqui apresentada a rima e métrica tenham sofrido alterações), líricos e intensos no conteúdo, sempre transitando entre amor e morte, e são dotados de uma forte carga de comunicação e autenticidade, podendo-se quase ouvir a voz do poeta. Os poemas do Divã do Tamarit, por sua vez, mantêm, em geral, um direcionamento semelhante ao dos sonetos quanto à temática, mas são muito mais livres formalmente. Apesar da relativa liberdade formal, o autor chamou aos poemas do Divã gazéis e cacidas, que são tradicionais formas fixas da poesia árabe e persa. A propósito, divã (Diwán) é como se chama um volume de poesia persa ou árabe. Tamarit (do árabe "cheio de tâmaras") é uma propriedade rural de familiares de Lorca em Granada, onde foram escritos alguns dos poemas da obra. Dado o importante legado cultural islâmico na península ibérica, a homenagem aos modelos poéticos de Al-Andalus pode ser vista como reconexão com um elo do passado.
Devido ao fato de as particularidades da rima e métrica não terem sido totalmente conservadas pelo tradutor, acredito que vale a pena que o leitor leia em voz alta o texto em espanhol, mesmo que não o compreenda. Após a leitura nos dois idiomas, também é muito produtivo procurar adaptações em música no YouTube. Para mim, essa foi a forma mais prazerosa de ler este livro que, sem dúvida, estará na minha lista das leituras preferidas de 2022!
Despeço-me com o desesperado e apaixonado apelo do soneto obscuro número 4:
O POETA PEDE A SEU AMOR QUE LHE ESCREVA
Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

