sexta-feira, 8 de março de 2024

Os jardins de Yin — H. P. Lovecraft

 Os jardins de Yin

H. P. Lovecraft, traduzido por D. A. Pinheiro



Atrás daquele muro tão antigo,

cujas torres musgosas alteavam

quase aos céus, eu pensei que se encontravam

borboletas e pássaros, no abrigo


dos mais ricos jardins com cerejeiras 

delicadas, e templos refletidos

em lagos mornos sob um céu tingido

de rosa, onde as cegonhas vão ligeiras.


Foram meus sonhos que deixaram aberto

o portão para aquele labirinto

de pedra com seu córrego infinito.

Eu me apressei e ultrapassei, incerto,


a sinistra muralha, e foi então

que eu vi que não havia mais portão.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Os 10 livros que mais gostei de ler em 2023

 

1- Burning in water, drowning in flame - Charles Bukowski

Mais conhecido por sua prosa autêntica e sem filtros, Bukowski deixou também diversos volumes de poesia. Burning in water, drowning in flame (Queimando na água, se afogando na chama) está entre os melhores, inclusive na opinião do próprio autor. Trata-se de um produto de quase 20 anos de escrita, como evidenciado no subtítulo (Selected poems: 1955-1973), transparecendo a sensibilidade, a honestidade e a alma livre do autor em poemas contendo desde a descrição de sonhos até fatos vividos e opiniões sobre a vida, o amor e as pessoas. 

2- Mar de Histórias: O Realismo - Aurélio B. H. Ferreira e Paulo Rónai (org.)

"Mar de histórias" é uma enorme compilação de contos da literatura mundial, divididos por períodos literários. Para o tomo "O Realismo", foram selecionadas obras-primas de 17 mestres, de países como Rússia, Brasil, Peru, França, Portugal e Hungria. Merecem citação privilegiada O sonho de Makar, de V. Korolenko, A caçada ao malhadeiro, do Conde de Ficalho e O primeiro impulso, conto moralista de um autor persa anônimo.

3- Versos, sons, ritmos - Norma Goldstein 

A leitura, a fruição e a interpretação do texto poético costumam ser atividades desafiadoras para estudantes e professores. Por meio desse curto tratado, o leitor terá contato com as diversas camadas do texto poético, conhecendo os tipos de rima, de métrica, e de arranjo dos versos, além de outras importantes instruções.

4- 1822 - Laurentino Gomes

Nosso país completou 200 anos desde sua independência, e a nova edição de 1822 foi um presente muito bom. Com sua linguagem cativante, Laurentino Gomes é capaz de fazer o leitor sentir os dramas e o clima social e político de dois séculos atrás, mostrando-nos as contradições, o heroísmo e as fraquezas dos personagens que fizeram o Brasil ser o que hoje é. É uma leitura inspiradora e necessária. 

5- Cem sonetos de amor - Pablo Neruda

O Lirismo do chileno Pablo Neruda manifestou-se nas mais variadas formas poéticas, inclusive as mais fixas. Por mais que alguns críticos neguem o estatuto de sonetos aos poemas dessa coleção (devido à liberdade, sobretudo quanto à rima), trata-se de textos singelos, sensíveis e intimistas, que falam a diversas gerações de leitores. 

6- Coração das trevas - J. Conrad

Coração das trevas é o livro mais conhecido do escritor polonês/britânico Joseph Conrad. Curtinho e criado em uma linguagem poética e descritiva, o livro aborda sutilmente os horrores da violência colonial e seus impactos na psique humana. Um livro bastante atmosférico, que tem lugar merecido no cânone literário. 

7- Sefer Yetzirah - Aryeh Kaplan (trad. e notas)

Clássico do misticismo judaico, essa antiquíssima e fascinante obra aborda a ligação entre as letras do alfabeto hebraico e o poder de criar o universo. Os comentários do R. Aryeh Kaplan (um físico que aproxima ciência e misticismo) trazem uma importante contextualização, situando o Sêfer Yetzirah no conjunto maior da literatura mística judaica antiga, com foco nas práticas de meditação, além de apresentar o texto em diversidade de versões e ilustrá-lo com muitos diagramas. Apesar de complicado, o tema é fascinante.

8- Toda a Poesia - P. Leminski

Livros com obras completas de autores dificilmente são uma má escolha. Leminski, especialista em capturar momentos, foi um grande autor de poemas curtos, muitos deles no estilo japonês "haicai" ou concretistas. Outros foram musicados por grandes nomes da música popular brasileira. 

9- Beijo no asfalto - Nelson Rodrigues

Li Vestido de noiva e Beijo no asfalto quase simultaneamente, e é difícil escolher um dos dois. Fico com o segundo, no entanto, pela forte crítica social e maior disponibilidade para o público geral. Uma obra de teatro que escancara a realidade hipócrita brasileira.

10- Sargento Getúlio - João Ubaldo Ribeiro

Não é um livro leve, mas Sargento Getúlio vale muito a leitura pela sua representação de problemas da vida brasileira, pelo diálogo com clássicos literários universais e, naturalmente, com os grandes temas humanos, como o senso de propósito, o livre-arbítrio e a submissão aos poderosos. 

quinta-feira, 9 de março de 2023

Versos escritos numa taça feita de caveira

Versos escritos numa taça feita de caveira
        Byron — Trad. Danilo Almeida Pinheiro


Não fique tão assustado:

Não estou aqui à toa

— O único crânio do mundo

Do qual só sai coisa boa.


Fui vivo, amei e bebi,

Da tumba fui retirado.

Pior é a boca do verme!

Pode me encher sossegado!


É melhor dar vinho doce

(Néctar divino) a você

Do que comida pros bichos

Que só querem me comer!


Aqui brilhava o intelecto

Mas agora estou sozinho...

Poxa! Na ausência de um cérebro,

Nada melhor do que o vinho!


Beba enquanto você pode:

No futuro alguns doidinhos

Vão tirar você da terra

E dedicar-lhe uns versinhos!


Por que não? Após u’a vida

Tão breve (e triste também)

Bem limpinha, uma caveira

Pode até servir pra alguém.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

A chave do "intelectual"




Certa vez, vi num livrinho o autor "pedindo desculpas" por não ter "um grande nível de intelectualidade". Isso nem faz sentido, porque  intelectual (esse adjetivo abusado e desajeitado) não é uma questão de quantidade, e sim de qualidade (propriedades, características). Em minha opinião, são alguns dos principais atributos do bom pesquisador, formando a palavra CHAVE:


a) Curiosidade — Quem acha que sabe tudo não tem o que aprender. É como um copo cheio em que não cabe mais nada. Donos da verdade não são confiáveis, e ninguém é pesquisador sem leitura e sem novidades, sejam poucas ou muitas. 


b) Honestidade — A pessoa honesta, quando não sabe de algo, diz as três palavras mágicas: eu não sei. Nada de ficar fingindo para "manter a pose". Humildade é fundamental sempre. O pesquisador também é honesto consigo mesmo e não dá um passo contrário às conclusões que tomou.


c) Autonomia — Não se deve acreditar em tudo o que se vê por aí. Ninguém é intelectual porque vê vídeos com informações duvidosas no YouTube. Muitos professores dizem informações erradas em sala de aula. O pesquisador 'vai ver se é mesmo'. Ele tem fontes, livros e sabe selecionar informações. Além disso, o pertencimento a grupos e o peso da opinião pública são coisas que pervertem um pesquisador. Se um leitor tem *medo* de seu grupo, ele não é livre, não é honesto. 


d) Vinculação — Não começaram a pesquisar hoje. Temos milênios de atividade intelectual humana, e quase tudo já foi bastante pesquisado. Nada de dar uma de "iniciador de sistemas". É necessário respeitar as tradições humanas que já começaram o trabalho.


e) Especialidade — É claro que ninguém dá conta de tudo. A propósito, ninguém mal dará conta de um único assunto. O tempo é escasso e, para alguns, quase indisponível. Então só dá pra pesquisar poucos campos de uma vez. Quanto aos demais, conversamos com as pessoas que se aventuram neles.


Tá cheio de pessoas se impressionando com aparências, com diplomas (alguns dos quais nem valem nada), com vozes grossas... Isso não quer dizer nada. A informação está aí EM ABUNDÂNCIA para ser pesquisada, comparada e abraçada. Essa é a parte difícil, que quase ninguém quer.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Esse drama variado — Clark Ashton Smith

 Esse drama variado

— De Clérigo Herrero (na verdade, Clark Ashton Smith)

(Tradução: Danilo Almeida Pinheiro)



Tão sem sentido e estéreis querelas!

Virtude sem sentido! Vão pecado!

Nosso drama pueril nunca há logrado

As vaias ou aplausos das estrelas.


Ó mundo, com seu bico tenebroso!

Qual deus se importa em aliviar o fardo

Da natureza — antigo leopardo

Ou do homem, macaco presunçoso?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Cerca e Muro - Clark Ashton Smith

 Cerca e muro (Clark Ashton Smith – Trad.: Danilo Almeida Pinheiro)

16/01/2023



Jaz esparso, há eras,

Junto a uma cerca de arame

O muro de pedras

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

O Êxtase de Raimundo (09/01/2023)


Num certo fim de tarde em janeiro, um pescador paraibano viu, no meio de um dos grandes rios brasileiros, algo maravilhoso ao passar por um trecho estreito, cercado de vegetação. Seria tarefa penosa ou inútil tentar descrever o quê, com todos os detalhes, mas conta Raimundo que o céu foi tomado por uma repentina escuridão e presenciou uma dança de infinitas cores e estrelas nunca vistas, coincidindo com a passagem de um grande jacaré de cores fosforescentes...


Sentiu-se frágil criatura

e ergueu-se desajeitado.

Quis explodir este brado:

Grória! Hosana nas artura!


Mas um só momento dura

sua voz: pensa, calado

que o que vê será levado

para sempre à sepultura.


Pois quem pode descrever

aquilo? e com que linguagem?

e quem poderia crer?


Não pensa mais, vive a imagem.

Não sente dor nem prazer.

Não sente nada... Oh! A imagem!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Os 10 livros que mais gostei de ler em 2022



1– Sonetos do amor obscuro e Divã do Tamarit – Federico Garcia Lorca

Esses dois tesouros da lírica espanhola são muitas vezes publicados em um só volume. Trata-se de  uma dúzia de sonetos que cantam o amor em suas facetas mais íntimas e causadoras de sofrimento, seguidos pelo Divã do Tamarit, poemas que homenageiam, na forma, a herança árabe andaluza e, no conteúdo, abordam a morte, o amor e o medo da perda. Gostei tanto que fiz uma resenha aqui.


2– Full dark, no stars [Escuridão total sem estrelas]– Stephen King 

Meu primeiro contato com a obra de King, essa coleção de quatro longos contos (novelas?) apresenta o tema da vingança em diferentes avatares, sempre com uma forte carga de tensão psicológica. Pelo menos uma das histórias ("1922") foi adaptada com sucesso para o cinema pela Netflix. Outra delas é inspirada em um famoso caso real de assassino em série. A edição que li, em inglês, traz ainda o conto "under the weather", que também é uma pérola. 


3– Estrela da vida inteira – Manuel Bandeira

Muita gente considera Manuel Bandeira um dos melhores poetas do Brasil em todos os tempos. "Estrela da vida inteira" reúne todos os livros de poesia autoral de Bandeira, incluindo, além de todos os clássicos, como "Carnaval" e "Libertinagem", produções como o "Mafuá do Malungo", que reúne  populares e espirituosos versos de circunstância, e algumas traduções. Escolhi um poema de cada livrinho presente na obra nesta postagem


4– A poesia Árabe-Andaluza: Ibn Quzman de Córdova – Michel Sleiman

Há pouca coisa publicada no Brasil sobre a poesia árabe em geral, principalmente a clássica. O grande acadêmico Michel Sleiman preparou, para somar à coleção de traduções poéticas da Ed. Perspectiva, um material crítico bastante detalhado e a tradução de belos poemas de Ibn Quzman. Trata-se de um poeta irreverente e talentoso,  considerado o maior de Al-Andalus. Li também A arte do zajal, do mesmo autor, que é mais técnico e detalhado, abordando a situação do zajal (um tipo de poema estrófico) dentro do quadro maior da poesia árabe medieval. 


5– Fin du Siècle por Carpeaux – Otto Maria Carpeaux 

Esteticismo, Simbolismo, Crepusculares... são muitos os rótulos e os movimentos sociais, políticos e estéticos do fim do século XIX. Parte da monumental "História da Literatura Ocidental", o volume "Fin du Siècle" nos deixa mais familiares com as obras de Oscar Wilde, Mallarmé, Rimbaud, Joyce, Proust e dezenas de outros autores, quase do mundo inteiro, do ponto de vista da crítica literária. Li, do mesmo autor, Uma nova história da música, cujo título aparentemente foi mudado em edições mais recentes. Decidi escolher apenas um dos livros para esta lista, apesar de os dois serem igualmente maravilhosos. 


6– Tratado de versificação – Olavo Bilac e Guimarães Passos

Peguei o Tratado pensando que seria apenas uma leitura sobre as regras "chatas" para fazer um poema parnasiano perfeito. Resultado: meu preconceito foi totalmente destroçado! Nessa obra, Bilac e Passos fazem uma revisão cronológica da poesia em língua portuguesa e, depois, dão as diretrizes para a confecção dos mais belos versos, tecendo preciosos comentários sobre o bom uso dos sons e sobre todos os nossos gêneros de poesia. Além disso, os exemplos trazidos pelos autores valem como uma antologia de boa poesia em várias formas e abordando vários assuntos. Acredito que todos os que escrevem poesia devem ler esse livro, perdoando a ausência do capítulo sobre verso livre.


7– The selected poems of Yehuda Halevi – Seleção, tradução e notas: Hillel Halkin

Para os que leem inglês, essa obra gratuita, que pode ser baixada aqui, nos presenteia com uma linda antologia de poemas de Iehudá Halevi, grande mestre da poesia medieval hebraica na Espanha sob domínio muçulmano. São obras (que seguem as estruturas clássicas árabes) de diferentes extensões e gêneros, sobre vinho, amor, religião e saudade da terra ancestral – a terra de Israel. Apresentados no original hebraico e em uma boa tradução, os poemas ainda contam com notas que os deixam mais próximos do leitor moderno.


8– Álcoois e outros poemas – Gillaume Apollinaire 

Ainda pouco comentado no Brasil, Apollinaire é conhecido por sua influência nas vanguardas europeias do início do século XX e por seus caligramas, poemas escritos formando desenhos. Os poemas de "Álcoois" são bastante visuais, "atmosféricos", e refletem diferentes estados de espírito, que podem ser imaginados enquanto lemos um pouco sobre a conturbada vida desse importante poeta. A edição que possuo, traduzida por Daniel Fresnot, traz, na seção "outros poemas", alguns dos caligramas e composições escritas no calor da Primeira Guerra Mundial para as musas de Apollinaire. 


9– Guia prático do Português correto: Ortografia – Cláudio Moreno

Todas as pessoas certamente se lembram de aulas empolgantes e significativas que tiveram durante os anos de escola. Sinto algo parecido ao ler livros como esse. O professor Moreno, na série "Guia prático do Português correto", consegue a façanha de comunicar importantes lições sobre nossa língua, respondendo às perguntas dos seus leitores e transitando entre diversos gramáticos, linguistas e literatos para nos mostrar uma das coisas que acho mais interessantes na língua: quase nada do que crescemos ouvindo falarem que é errado em português o é. Esse livrinho de capa roxa é o primeiro volume de uma série de cinco e lida com a ortografia, ou seja, a forma correta de escrever as palavras. 


10– Folhas de Relva – Walt Whitman

Para finalizar essa lista cheia de poesia, o maior clássico da poesia dos Estados Unidos. Tornado célebre no mundo pop em produções como "Sociedade dos Poetas Mortos" e "Breaking Bad", Folhas de Relva reúne uma vida inteira de versos livres de Walt Whitman, arauto da democracia, dos EUA e da divindade de cada pessoa humana. Mesmo que a leitura da obra integral possa se tornar cansativa, duvido que qualquer pessoa sensível folheie esse livro sem ser tocada por muitos de seus poemas.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Poema: Flecha que voa de dia

FLECHA QUE VOA DE DIA- 14/11/2022
Danilo Almeida Pinheiro


Fica sempre um gosto amargo
Livrando a boca do crime
E a paz imóvel do hímen
Chega a seu fim de um só trago.

Haverá quem não termine
A taça vil do egoísmo
Quando a beira de outro abismo
Usando ardis o fascine?

Eis: do universo nas quinas
Vêm as nuvens e se forma
O balde de gotas finas 
—A fonte das águas mornas

Das pálpebras das meninas

E outra vez faz-se a pergunta
Do irônico Nicodemos:
Importa-nos se é defunta
A riqueza que perdemos?

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Os jardins de Yin — H. P. Lovecraft

 Os jardins de Yin H. P. Lovecraft, traduzido por D. A. Pinheiro Atrás daquele muro tão antigo, cujas torres musgosas alteavam quase aos céu...