quarta-feira, 23 de março de 2022

Gazal: o poema oriental do amor

A poesia persa e árabe antiga sempre foi uma das paixões de muitos intelectuais e literatos do Ocidente, como Goethe, García Lorca, Edward FitzGerald e Manuel Bandeira. Trata-se de uma poesia diferente de tudo o que conhecemos, que, como o literato e tradutor Alberto Mussa gosta de explicar, não é épica, nem  lírica. Da tradicional cacida (ou qaṣida - قصيدة) pré-islâmica diversos outros modelos poéticos se desenvolveram, sendo um dos mais apaixonantes o gazal. 

Também grafado como ghazal ou gazel, essa curta forma poética, geralmente sobre temas amorosos, encontrou seu ponto alto em poetas persas, como Hafiz (século XIV).

Em homenagem a Hafiz, Manuel Bandeira escreveu seu gazal:


Gazal em Louvor de Hafiz- Manuel Bandeira

Escuta o gazal que fiz,
Darling, em louvor de Hafiz:

Poeta de Chiraz, teu verso
Tuas mágoas e as minhas diz.

Pois no mistério do mundo
Também me sinto infeliz.

Falaste "Amarei constante
Aquela que não me quis".

E as filhas de Samarcanda,
Camaleiros e sufis.

Ainda repetem os cantos
Em que choras e sorris

As bem-amadas ingratas,
São pó; tu, vives, Hafiz !!! 

 

Os gazéis de Hafez (como também é grafado) transitam entre temas como amor, perda, religião, reflexão existencial e vinho. O website Hafiz Life & Poetry, editado por Shahriar Shahriari, reúne grande parte dos gazéis e outros poemas de Hafiz em persa e em tradução inglesa. 

Quanto à forma, o gazal é composto por dísticos (pares de versos), sendo que os dois primeiros versos rimam entre si e os demais rimam, quando pares, com os iniciais (ou seja: AABACADA...). Esses dísticos podem variar de cinco a quinze em número. O vídeo abaixo (do canal Black Cofee Poet, em inglês) apresenta uma pequena aula sobre a origem do gazal e sua composição, com exemplos de autores contemporâneos. 


 Dos cancioneiros persas medievais, o gazal se difundiu por muitos países do oriente e, no século XX, encontrou um lugar na língua inglesa, por meio de poetas como Agha Shahid Ali, nascido na Caxemira e naturalizado estadunidense. 


Seguindo os passos de Bandeira e o espírito da tradição persa-árabe, com uma pitada de Gonçalves Dias, apresento meu humilde gazal:

 

Gazal do Jardim

 

Ontem estava triste, vim

Despairecer no jardim.

Aqui só vejo o que é belo

Vivo num prazer sem fim

Aqui jogo fora os medos

Que encontro dentro de mim

 No jardim faço o que eu quero

E eu adoro estar assim:

Leio livros de poesia

Bebo vinho geladim

Jogo videogame antigo

Deito em cima do capim

Vá pra lá com seu estresse!

Deixe eu ficar no jardim.



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